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Invertendo Situações


Um dia desses cheguei em casa, e minha namorada, que estava de férias, me aguardava enquanto assistia séries, e então deu-se o início de uma batalha psicológica, em que antes de começar, eu já estava fadado a perder.
Entrei em casa e agi com toda normalidade rotineira possível, joguei a chave do carro em cima da bancada, tirei os sapatos e suspirei aliviado, dei um beijo na testa dela e fui tomar um banho, o dia tinha sido bem corrido.
Quando voltei, enchi uma taça de vinho, sentei ao lado dela no sofá, e fiquei quieto, para não atrapalhar sua concentração, pois parecia bastante interessada no que assistia. E então o interruptor do sexto sentido, que toda mulher possui, e que é incrivelmente conveniente e propício, foi ligado.
Ela olhou pra mim, nessa primeira vez com um ar de preocupada, e perguntou o que eu tinha, pois estava muito quieto, nisso respondi que não tinha nada, que estava tudo bem, que era impressão dela. E então ela listou cada detalhe que à fez chegar a tal conclusão sobre mim:
“- Primeiro, você nunca fica quieto diante de um seriado, se for um que você já assistiu, começa a contar o que vai acontecer, se for um que ainda não viu, começa a perguntar o que aconteceu e sobre o que é, e se for um atual que está acompanhando, ou questiona tudo, ou faz voltar do início do episódio. Que seria a terceira opção, nesse caso. Mas você não falou absolutamente nada. Vou perguntar mais uma vez: O que houve?”
Depois que parei de pensar no quanto deve ser chato assistir seriados comigo, pensei em quanto tempo ela teve pra fazer tamanha análise, e só pude concluir: “Caramba, ela é boa!”
Então tentei tranquilizá-la:
“- É só o cansaço mesmo, o dia foi corrido, e muito pouco produtivo, quase que de nada adiantou sair da cama hoje.”
Ela se fingiu de satisfeita, deu o play na série e voltou a prestar atenção na televisão, mas apenas por alguns minutos, e então deu pause na série, e com uma expressão desconfiada, retomou sua análise e questionamento:
“- Não, tem mais coisa aí, quando o seu problema é cansaço, você vai direto pra cama, quando o seu problema é que o dia não progrediu, gosta de desabafar, e no entanto aqui está você, com essa cara de tristeza mesclada com culpa, e mesmo aparentando realmente estar cansado, está aqui, me fazendo companhia. Vou mudar a pergunta: O que você aprontou?”
Meu queixo estava quase no chão depois disso, nessa hora a única coisa que um homem consegue pensar é “Tô na merda, hoje e sempre!”. Tentei mais uma vez fazer com que ela esquecesse o assunto:
“- É sério, é apenas isso mesmo, estou cansado e frustrado, nada mais, agora vê se sai da minha mente, Jean Gray, isso é falta de educação!”
Ela riu da piadinha Marvel, e pela segunda vez deu o play no terceiro episódio de Westworld, coloquei meus braços em volta do seu ombro, e pensei aliviado: “Ufa, foi por pouco!”.
Mas, a paz durou apenas míseros 5 minutos, ela deu pause mais uma vez, e se desvencilhando do meu braço, com um olhar completamente acusador dessa vez, começou:
“- Só agora percebi que você ao não resistir o impulso de fazer uma piadinha, acabou se entregando, se eu estava na sua mente, é porque estava certa, e se eu estava certa, é porque você realmente aprontou alguma coisa, então meu amor, nem pense em vir com a mesma desculpa esfarrapada, desembucha de uma vez, o que você fez?”
Primeiramente amaldiçoei minha paixão pelos X-men, depois comecei a pensar em como dizer a verdade, e cheguei à conclusão que a melhor maneira era apenas dizer e pronto, simples assim.
Só que aí não seria eu se assim fosse, então expliquei:
“- Amor, você já deve ter escutado histórias ou piadas em que acontece mais ou menos isso que está acontecendo agora, só que o inverso, o homem questionando, e a mulher enrolando sem querer dizer o que aconteceu. Não é mesmo? Por acaso na maioria das vezes, como essas histórias ou piadas terminavam?”
Ela olhou pra mim, e então olhou pra cima pro vazio, como quem se esforça pra trazer memórias à tona, e alguns segundos após ela arregalou os olhos, e com uma cara que misturava desespero e incredulidade, perguntou:
“- Ai Gill, não acredito, você bateu meu carro?”⁠⁠⁠⁠

Gill Nascimento

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