Poréns


A gente sabe o que deve fazer, porém, não temos certeza de como, porque a vida é isso, uma enorme coleção de “poréns”!
Passamos metade dela nos auto questionando, tentando descobrir quem somos, o que pretendemos, o que esperamos, do que precisamos, e outra metade tentando descobrir a maneira certa de buscar cada um desses objetivos, e talvez seja essa a pior parte, descobrir o “o que”, mas não estar totalmente certo do “como”.
A gente encontra o nosso verdadeiro eu, porém não tem a mínima ideia de como se encaixar no mundo.
A gente descobre o que quer, porém nem imagina como fazer para conseguir. gente percebe o que temos esperado a vida toda, porém não sabemos de onde fazer brotar a paciência para continuar esperando.
A gente entende enfim a diferença entre querer e precisar, porém descobrimos que a mesma dificuldade para se obter o que se quer, se encontra na hora de conquistar o que se precisa.
A gente descobre quais são as maneiras erradas de fazer as coisas, porém não entendemos porque após essa elucidação, ainda assim o modo errado parece tão mais atraente e atrativo.
A dúvida que fica é se tantos poréns tornam a caminhada mais longa e a diversão mais curta, ou se esses mesmos poréns, na verdade tornam a vida num todo mais longa. Porque a impressão que dá é que se não houvesse tantas dúvidas, seria como se não houvesse uma missão, um objetivo, um sentido.
Eu, às vezes, tiro uma folga de tantas confusões mentais, tantas questões da vida, desses chatos poréns, e deixo tudo seguir seu curso normalmente, fecho os olhos e deixo apenas o vento empurrar a canoa pra onde ele bem entender. Antes um chão desconhecido, do que ser um náufrago que não chegou a lugar nenhum por não ter certeza de pra onde deveria ir. Confesso, de vez em quando essa desistência pessoal funciona.
Eu poderia dizer que passei por isso recentemente, mas seria a mais pura modéstia, passamos por isso praticamente todos os dias, o que muda é a intensidade do ocorrido, e isso, às vezes, faz com que nem cheguemos a perceber que abandonamos os remos.
Lidar que é complicado, quando tudo isso começa a pesar e a sufocar, o que não podemos é desistir, se administrar a dificuldade não é fácil, encarar a frustração pode ter certeza que é pior.
Eu estou chegando num final de ano em que fiz centenas de planos, e agora que olho pra trás a única coisa que consigo pensar é: “Onde será que eles foram parar?”. Acho que o destino tinha seus próprios planos.
Geralmente sou assim, economizo as alegrias e felicidades, uso elas moderadamente, para usufruir o máximo de tempo possível, por outro lado as tristezas eu gosto de receber à vista, todas juntas, para que várias me afetem numa ocasião só, ao invés de uma esperar que a tortura da outra acabe para começar a sua própria.
Funciona bem.
Mas os poréns, eles continuam, quando a dose moderada de felicidade acaba, quando o vento para de soprar, quando chega a hora de bater o ponto e iniciar o expediente da rotina, não tem jeito, eles voltam a nos atormentar.
Eu quero, porém não posso.
Eu devo, porém não quero.
Eu preciso, porém não tenho.
Eu tenho, porém não é o bastante.
Eu gosto, porém não preciso.
Eu sinto falta, porém não vai voltar.
Eu não quero que volte, porém a vida não sabe disso.
Eu agora entendo, porém já é tarde demais.
Eu não entendo, porém nunca é tarde demais para aprender.
A gente enlouquece se parar pra pensar nos poréns e em todas as suas contradições.
O intuito desse texto?
Acho que era não enlouquecer sozinho.



Gill Nascimento





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