Últimas Notícias

Mundo pequeno...


Em agosto comentei no Twitter que, devido uma crônica publicada muitos anos atrás numa revista, vim a ganhar uma viagem pra Espanha por ter ficado entre as dez melhores na opinião dos assinantes, e com isso recebi alguns pedidos para que contasse a história aqui, então vamos lá…



Certa vez, muitos anos atrás, meu avô me disse: “Filho, toda ação causa uma reação, e se você não puder prever a reação, não mexa com a ação!”.
Vim a aprender pouco tempo depois o quanto ele estava certo, certo demais.
Quando comecei minha primeira faculdade eu era o típico universitário duro, trabalhava pra pagar os estudos e praticamente nada mais, então no melhor estilo “quem não arrisca não petisca”, pra tentar melhorar um pouco essa situação, na época prestei concurso para bombeiro, e vejam só, acabei passando, e bem colocado.
Foi uma época ótima, aprendi muitas coisas que não sabia, tive várias experiências legais durante o treinamento, e de quebra estava realizando meu sonho de criança, apesar que na época já o tinha abandonado, mas durante minha infância eu sempre dizia que seria um bombeiro quando crescesse.
O final do processo de treinamento, na parte mais teórica, foi feita em São Caetano do Sul, o que também foi bacana, porque até então não conhecia a cidade, e sinceramente adorei.
No último dia de treinamento, todos os recrutas resolveram comemorar, após o término, num barzinho lá mesmo no ABC Paulista, e de dose em dose, acabei perdendo a hora, e como naquela época morava na minha amada Embu das Artes, e não tinha carro, por ter ficado muito tarde e não ter mais ônibus, não pude ir para casa, então resolvi estender minha noite ali mesmo no bar, já sozinho, até dar o horário do primeiro ônibus sair.
Num certo momento, ao me trazer uma bebida que eu havia pedido, o garçom comentou comigo, apontando para um outro cliente que, estava meio que havendo uma briga interna entre os garçons para ver quem atendia o já ébrio homem, pois o mesmo estava, desde a chegada, chorando todas as suas mágoas e tristezas.
E eu também já não muito sóbrio, respondi: “Vocês não sabem ganhar dinheiro, isso sim, pois são esses clientes que mais movimentam financeiramente o fluxo de caixa dos bares. Vou ajudar vocês, deixa comigo!”.
Então me dirigi a mesa do cara, perguntei se podia me sentar, me ofereci pra pagar a próxima rodada, e puxei assunto, e como esperado, na primeira oportunidade o homem começou a lamentar a vida.
E como lamentou.
Pareceu para mim que ele estava contando todas as desgraças de sua vida desde o momento em que saiu do útero de sua progenitora, mas aparentemente estava falando apenas da última semana mesmo.
Ele falou da sua situação financeira, que contava com duas prestações atrasadas do carro, um filho quase da minha idade que queria entrar na faculdade, e até do cachorro doente que estava dando muitos gastos com o veterinário. Falou da situação psicológica, de como não aguentava mais não ter tempo pra nada, além de trabalhar, e não ver o retorno que gostaria, e de como se sentia sufocado na vida. Falou também da situação amorosa, e de como tinha levado um pé na bunda da esposa, por tê-la traído num momento de total embriaguez, de como a amava e de como estava arrependido e se sentindo culpado por isso.
Teve um momento em que a natureza me chamou, mas segurei firme e não fui ao banheiro, porque eu realmente tinha medo de sair daquela mesa e aquele homem acabar se matando.
Então resolvi tentar ajudá-lo. O problema é que não sou tão bom assim com as palavras quando o assunto é consolar as pessoas, ainda mais se estiverem bêbadas, então fiz o que me cabia naquele momento, inventei problemas bem piores para mim mesmo, e agi como se aquela fosse então a minha vez de desabafar. Pra cada problema dele eu inventei um pra mim bem maior.
Falei também da minha situação financeira, de um fictício carro que já havia sido apreendido por falta de pagamento e de como agora não podia levar minha mãe doente ao médico, de como trabalhava desde os 14 anos para ajudar em casa e me sentia mal por estar desempregado e ver as coisas faltando, falei dos remédios da minha mãe que não estávamos podendo comprar, e inventei misérias até onde minha criatividade conseguiu, e eu posso ser muito criativo quando necessário, ainda mais depois de uns goles.
Falei da minha situação psicológica, de como não sentia vontade de ver as pessoas, que só queria ficar trancado dentro do quarto, de como era ruim me sentir um inútil, e de como achava que se eu sumisse seria até melhor pra todo mundo.
E como não podia ser diferente, falei também da minha situação no campo dos sentimentos, de como também tinha tomado um chute no traseiro da mulher que amava, de como minha vida parecia não fazer sentido sem ela, de como era ruim colocar a cabeça no travesseiro toda noite pensado nela. Só que no meu caso o corno fui eu.
Acreditem se quiser, mas esse embuste funcionou muito bem, depois que parei de falar, o cara que eu achava até que podia se matar, de consolado passou a consolador, e começou a soltar um monte de palavras otimistas tentando me animar e ajudar.
Quem diria que daria certo?
Logo após deu a hora do primeiro ônibus, e com uma sensação de missão cumprida paguei minha conta, me despedi do meu novo amigo e fui embora.
Uma semana depois voltei a São Caetano, junto com os outros recrutas, para pegar minha ordem de alocação, e também saber em qual batalhão seria alocado, e que eu esperava que fosse na Capital, de preferência na Zona Sul, para facilitar a minha vida e o meu trajeto diário.
Para a minha surpresa, adivinhem quem era o sargento comandante do batalhão?
Exatamente, o infeliz do bêbado chorão que exigiu toda minha desenvoltura como contador de histórias uma semana antes.
Ao me ver ele sorriu, e veio em minha direção, me comprimentou, pegou das minhas mãos a ordem de alocação que o Cabo havia me entregado, e que eu ainda nem tinha aberto, abriu, leu, e então disse:
“ - Não, você não vai se apresentar no Batalhão do Capão Redondo, quero você aqui em São Caetano trabalhando comigo!”
No final das contas quis ajudar e acabei me dando mal, fiquei 2 anos me deslocando uns 60 quilômetros para poder trabalhar.
Um tempo depois contei essa história para o Sargento, que não sabia se ria ou se me xingava, mas no final agradeceu, pois realmente eu o havia ajudado.
Hoje ainda somos bons amigos, ele está aposentado e parou de beber, pois foi a exigência que a esposa dele fez ao aceitá-lo de volta.



Gill Nascimento

9 comentários:

Deixe sua opinião sobre esse texto!