Enfrentando o Medo

Enfrentando o Medo

Ele está no corredor do quarto, suor frio escorre de sua testa e suas pernas tremem. Se sente o homem mais covarde do mundo, por estar sem coragem de abrir a porta e encarar o perigo.
Enquanto sente seu medo ganhar força e proporção, consegue escutar as batidas aceleradas do seu coração. Quase pode escutar o sangue correr em suas veias. Sua respiração ofegante, de quem parece ter corrido uma maratona, o incomoda. E teme que tanto sua respiração quanto sua frequência cardíaca denunciem a sua posição do outro lado da porta.
Está ciente que não pode pedir ajuda pra ninguém, que essa é a sua luta, a sua missão.
Percebe que está mentalmente rezando e pedindo ajuda e coragem pra Deus, pra enfrentar seus medos.
Pensa nas opções pra contornar a situação e não encontra nenhuma que o faça dar um passo em direção a porta.
Se imagina pedindo perdão de mil maneiras possíveis, e ainda não consegue se ver em situação melhor que a atual, e o desespero chega para fazer companhia ao seu medo.
Ele cogita a possibilidade de atravessar a porta de peito estufado, camuflando o medo e, demonstrando confiança, mas isso poderia fazer parecer que não estava arrependido, e acabar piorando ainda mais sua situação.
Ele que serviu o exército por 5 anos, cumpriu missões em áreas perigosas da América do Sul, em pacificações de áreas dominadas por rebeldes e traficantes, ele que desmonta um rifle em segundos e é mestre em defesa pessoal. Ainda assim teme atravessar aquela porta e enfrentar o que está no outro cômodo.
Lembra de sua infância, dos conselhos dados pela sua mãe, conselhos visando seu bem, conselhos que deveria ter mantido no lugar mais acessível e mais visível de sua mente, mas não fez. Agora só consegue ouvir a voz dela dizendo como deveria agir para evitar tais situações, e lamenta não ter dado a devida atenção.
Lembra ainda do seu pai que também o alertou, e ainda avisou do perigo que era brincar com tal situação, desse perigo que estava enfrentando agora, e que na época ele achou engraçado e exagero por parte dele. Como foi tolo ao não dar ouvidos.
Agora está ali, encolhido num canto do corredor, como uma presa acuada pelo predador, aquele do topo da cadeia alimentar, olhando pra porta sem ter ideia do que fazer, misturando medo e arrependimento, temendo pelo seu futuro e sua integridade física.
Então levanta num acesso de coragem.
Respira fundo, estufa o peito e vai em direção à porta.
Para por alguns instantes controlando o medo que no fundo ainda o domina, e põe a mão na maçaneta.
Gira a maçaneta para abrir a porta enquanto se condena mentalmente:
– “Maldita hora em que ela veio me perguntar se eu achava que ela estava mais gorda do que quando a conheci, naquele verão de 1982, quando ela tinha 13 anos, e eu resolvi ser sincero e dizer que sim!”



Gill Nascimento








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4 comentários:

  1. Quando vai ter a segunda parte que conta como ele morreu?

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  2. Já aconteceu algo parecido comigo e eu dormi uns três dias no sofá kkkkkkkk curti esse Blog e estou viajando nos textos

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    1. Comigo nunca aconteceu, e espero nunca acontecer kkkkkkkkk

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