Vencendo pela teimosia

Vencendo pela Teimosia


Existem coisas que fazemos, meio que automaticamente, por ser meio que natural para nós, mas que no contexto geral é uma total perda de tempo, por se tratar de algo completamente inútil e sem aplicação, ainda assim continuamos fazendo e repetindo continuamente.
Uma dessas coisas, na minha humilde opinião, é planejar, está mais do que claro que a vida está pouco se importando se temos um script completo, ela vai improvisar e exigir de nós as mais rápidas adaptações, e como sempre, fiquem à vontade para dizer que estou errado. Mas nós somos teimosos, queremos acreditar, bem lá no fundo, que estamos sob total controle, quando na maioria das vezes estamos apenas seguindo o curso e vendo onde as coisas vão dar.
Se tudo correr bem, ótimo, tudo certo, agimos como se tudo tivesse saído conforme os nossos planos e o resultado fosse consequência dos nossos atos, como se tudo tivesse sido planejado, cada mínimo acontecimento. Agora se der errado, “cabeça erguida, lá na frente teremos outras chances, às vezes precisamos saber perder”, mas no fundo essa clareza espiritual e toda essa conformidade nada mais é que o costume, afinal, é muito mais normal as coisas tomarem seu rumo próprio.
Mas o ponto é que a vida não está se importando nem sequer um pouco com os planos que você fez, se existir reencarnação, tenho certeza que a vida já começa a ferrar a gente por antecipação, porque todo mundo tem aquela mania de dizer algo do tipo “Na próxima encarnação quero nascer rico!”, “Na próxima encarnação quero nascer lindo!”, a vida escuta essas coisas e anota na agenda da frustração, pra não esquecer de te ferrar.
A vida é exatamente o contrário do ser humano, desde os tempos mais remotos a humanidade cria coisas que facilite a sua vida, de forma que ela não precise mais fazer algumas coisas, bem, a vida tem ali o seu trabalho, que é seguir seu rumo, e tem a opção mais fácil, que é tipo um botão que ativa o modo do piloto automático, que no caso é deixar a gente fazer planos, e correr atrás pra que eles se concretizem, e aí mora o problema, a vida gosta do seu trabalho e não quer um ajudante, e não faz diferença se estamos nos voluntariando.
Outra coisa que a vida odeia é prazos, sempre que a gente planeja algo, se for à curto prazo, quando chega no tempo já considerado médio, a gente desiste, e se sente um baita de um incompetente, porque cá entre nós, planos à curto prazo geralmente são aqueles que nós mesmos consideramos fáceis, então a decepção geralmente é bem grande. Agora se for a médio prazo, a vida até pega leve e deixa a gente realizar, tipo uns dois meses antes de morrermos, que é pra gente sentir aquele gostinho da raiva que dá de não poder aproveitar. Agora se for a longo prazo, imagino eu que entramos num tipo de loop infinito, a gente morre sem concretizar, nasce na próxima encarnação com o mesmo plano, morre sem realizar, de novo, e nasce numa terceira encarnação com o mesmo plano em mente, e assim por diante, várias e várias vezes.
A maior besteira que uma pessoa pode fazer é bater no peito e dizer que ninguém a faz de trouxa, está aí a vida pra contrariar facilmente essa afirmação, e comprovar a tese de que na verdade todos nós já nascemos trouxas.
Mas estamos no século 21, é uma hora a gente tem que aprender.
Aprender a deixar de ser trouxa?
Não!
Aprender a ser trouxa e se conformar com isso.
Tanto que no dia 16 de fevereiro teve aquele boato do meteoro, que se chocaria com a Terra e seria o fim do mundo, e eu vi gente no dia 17 reclamando dos cientistas que fizeram a previsão, dizendo que eles só sabem nos iludir. E aconteceu a mesma coisa no dia 23 de setembro com a previsão do David  Meade, a vida trata a gente tão mal, que tem muita gente por aí que já se tocou disso, e adoraria testar pra ver se a morte é mais gentil.
Um dia desses um cara na cafeteria puxou conversa comigo, e eu não estava num humor favorável, deu vontade de falar pra ele que ali era uma cafeteria e não um bar, e que eu era um cliente e não um Barman, porque o cara começou a se abrir e reclamar da vida, mas sou educado e não falei nada, só que teve uma hora que ele disse estar decepcionado consigo mesmo, pois tinha 40 anos e ainda não tinha feito nada na vida. A única coisa que me veio na mente foi dizer: “Sorte sua, meu amigo, porque se não fez nada por não ter tentado, teve a sorte de não sentir o desprazer de ver a vida estragar seus planos ignorando o número de tentativas!”.
Eu apesar de estar aqui satirizando o tema, sou um ser humano completamente normal, tenho meus planos, a curto, a médio e a longo prazo também, tenho consciência de que podem não dar certo, mas sigo firme e forte, sou um trouxa, mas sou um trouxa teimoso, imagino que a vida não se canse, mas se não posso vencê-la pelo cansaço, quem sabe eu consiga vencer ela com a minha chatice e teimosia.




Gill Nascimento

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe sua opinião sobre esse texto!

Casuísmo no Instagram