Uma frase que afeta...




Um dia desses uma amiga foi me visitar no escritório, mas imagino que foi mais interessada nos Donuts que geralmente compro pra comprar a paz diante das duas senhoritas que trabalham comigo, e sempre posto fotos no Twitter quando faço isso, e no dia em questão eu havia postado uma dessas fotos, ficou essa desconfiança. Mas o principal mesmo foi algo que ela me falou.
Ela me contou que no dia anterior ela havia lido apenas o título de uma matéria num site, isso mesmo, ela só leu o título, ainda assim desde então estava perturbada pensando na frase do título, que perguntava: “O tempo está passando, o que você tem feito da sua vida?”.
E isso me deu a ideia desse texto, e não, não vou escrever um texto de reflexão sobre a vida, sobre o que fazemos dela, se estamos fazendo o que sempre sonhamos, se somos felizes sendo quem somos, e nem nada parecido com isso.
Na verdade a ideia veio no fato da frase perturbadora que a fez pensar, e esse texto não é uma reflexão, mas sim uma crônica, uma história já um pouco antiga que lembrei devido isso.
Um bom tempo atrás (bota tempo nisso), eu trabalhava no antigo banco Unibanco, antes de se unirem ao Itaú, no prédio administrativo ao lado do Shopping Eldorado na Zona Oeste de São Paulo. Nessa época, a primeira passarela que atravessa a avenida Euzébio Matoso e fica em frente ao edifício, era meio que o refúgio de um simpático morador de rua, que a maioria dos funcionários do banco conhecia, e que era chamado por nós de Rubão.
O Rubão geralmente era bem na dele e não incomodava ninguém, mas teve uma época em que ele parecia estar um pouco perturbado das ideias, e sempre que estendia a mão para algum pedestre para pedir uma ajuda, tinha na ponta da língua alguma piadinha ofensiva sobre a pessoa, e isso andava deixando a galera do banco preocupada, e os transeuntes bem incomodados.
Num certo dia voltando do almoço encontrei com ele ao passar pela passarela e resolvi perguntar porque ele andava fazendo isso, e ele simplesmente explicou que sendo quieto e calado como geralmente era, as pessoas além de não ajudarem, ainda não tinham sequer coragem de encará-lo, mas com essas piadinhas ele perdia a ajuda dos ofendidos, mas ganhava de quem vinha logo em seguida e tinha visto a cena e achado engraçado. Na hora achei a ideia dele incrível, mas claro, tinha uma falha, e tratei de explicar pra ele.
Comentei que a ideia em si era boa, mas que a não ser que ele tivesse uma memória incrível, em pouco tempo o tiro poderia sair pela culatra, porque as pessoas que hoje achavam engraçado, amanhã poderiam ser as ofendidas por ele, se ele não se lembrasse disso, e com o tempo ninguém mais iria achar engraçado por também terem sido vítimas, e ali, naquela passarela, geralmente os transeuntes eram sempre os mesmos, e ele depois de pensar um pouco percebeu que eu tinha razão.
Nisso dei outra ideia para ele, a de usar uma frase que fizessem as pessoas refletirem muito, algo que elas não esquecem tão facilmente, ele gostou e resolveu que iria pensar no que diria e iria adorar essa tática. 
Passado uma semana, sem tê-lo visto novamente nesse meio tempo, ao voltar de um almoço no shopping, passando pela recepção, a recepcionista veio me contar a novidade, de como o Rubão vinha deixando as pessoas que passavam por ele completamente incomodadas, por causa de uma simples frase que ele dizia ao estender a mão e pedir uma esmola: “Deus sabe de tudo que você fez!”.
Subi para o meu andar imaginando como deveria ser passar por ele e ouvir essa frase, e como deveria ser as reações das pessoas, ri muito ao imaginar, e na hora de ir embora encontrei com o Rubão na passarela e ia questionar sobre sua nova abordagem, mas vi pessoalmente.
Na hora duas moças vinham conversando animadas, rindo bastante, e uma delas já havia visto o Rubão e retirava uns trocados da bolsa para dar a ele, quando chegaram ao seu lado ele estendeu a mão e disse a bendita frase pra moça, que após passar por ele simplesmente parou de rir e adotou uma expressão que nem sequer consigo descrever, um misto de espanto, reflexão e preocupação, que pra mim, que era expectador, era simplesmente hilária.
Ao passar por ele comentei que tinha adorado a nova abordagem, e que ele estava com certeza dando o que pensar à essas pessoas, e nisso ele simplesmente me disse: “A melhor parte é que a maioria dessas pessoas agora sempre que passam me dão novamente uns trocados, não sei se é por medo ou por culpa”.




Gill Nascimento





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Um comentário:

  1. Se um morador de rua fala isso pra mim eu saio correndo hahahahahahaha

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