A Velha Senhora

A Velha Senhora


Dizem há tempos, que é necessário vários homens para se construir uma casa, porém, apenas uma mulher para se construir um lar, mas nunca especificaram que deve ser precisamente uma esposa, e esqueceram também de falar que tem que ser “A” mulher.
Formado, bem  sucedido, solitário em seu apartamento de 200m², e que aliás parecia ser bem maior com tanta bagunça, Marcelo, como todo homem rico, era ocupado demais com seu trabalho, não tinha tempo para resolver seus problemas pessoais, precisava urgentemente de alguém que organizasse sua vida em seu lugar.
Precisava de uma empregada doméstica, pois há dias estava dormindo na escrivaninha pensando ser a cama, precisava de uma babá que cuidasse do seu filho nos finais de semana, pois a mãe fazia questão disso, já que o moleque era uma peste, precisava também de um Office boy, de uma cozinheira, lavadeira, psicólogo, massagista (as tensões eram muitas), entre outros, resolveu colocar um anúncio no jornal para tentar se organizar de uma vez por todas.
Um certo dia uma senhora, com seus 65 anos, simpática, apareceu devido o anúncio, a surpresa de Marcelo foi saber que essa senhora, queria preencher todas as vagas anunciadas, ela afirmava ser capaz de cumprir com todas as responsabilidades sem ter problemas, e que ainda teria tempo de ir ao mercado, tomar conta da agenda do patrão, calcular o imposto de renda, e muitas outras responsabilidades, tudo isso num período de trabalho de 12 horas.
Marcelo é claro, ficou espantado com tamanha pretensão, não acreditando na capacidade da senhora, contratou-a como por um desafio, o mais incrível é que ela nem quis falar de números, de salário, ela queria trabalhar, começou no dia seguinte.
Chegando logo de manhã, pontualmente às 7 horas, encontrou Marcelo pronto para viajar à trabalho, uma viagem de 2 dias, era notável a disposição no olhar da velha senhora, ela não via a hora de começar a trabalhar.
O relógio antigo, escondido embaixo de um sobre-tudo social, badalava que já eram 9 horas da manhã, fora a sala, todo o resto ja se mostrava existir, os colchões estavam em cima das camas, com lençóis limpos, não havia mais roupas sujas jogadas pelos quartos nem banheiros, a cozinha estava completamente limpa, a samambaia brava de cor marrom clara, que havia nascido numa pizza de 2 meses estava regada e podada, as roupas estavam na máquina de lavar, a louça na secadora, a geladeira organizada, limpa e vazia, pois toda a comida estava estragada e vencida, havia um ovo na geladeira que podia ser enfeitado com uma placa escrita: "aqui jaz um ovo, que se por acaso tivesse se tornado pinto, hoje seria um galo de 7 anos!".
Essa senhora era realmente incrível, arrumou a sala deixando-a o ambiente mais agradável da casa.
Saiu para fazer compras, produtos de higiene pessoal, alimentos, sem esquecer das frutas, legumes e verduras, bebidas de reposição para o bar na sala, e os frigobares do escritório e do quarto, tudo sempre seguindo à risca o gosto do patrão.
Terminada as compras, que devo citar, foi em tempo recorde, se dirigiu ao banco para pagar as contas, condomínio, luz, água, gás, faturas dos cartões de crédito, pensão do filho, e todo o resto como uma verdadeira Office-girl, voltou para o apartamento a tempo de receber o entregador que trazia as compras, guardou-as, ouviu as mensagens na caixa postal, anotou os recados, marcou os compromissos do patrão na agenda e aproveitou para organizá-la como uma verdadeira secretária.
O relógio badalava 11 horas apenas, sem o sobre-tudo notáva-se um lindo relógio antigo de mogno com um pêndulo dourado e um Cuco com topete de Catatua que ela fez questão de pentear, mais da metade do serviço já estava feito, estava na hora de buscar o filho do patrão na escola, era sexta-feira, ele iria passar o final de semana na casa do pai.
A criança era uma peste, já chegou querendo bagunçar tudo novamente, tinha de quem herdar tamanho talento. Como uma verdadeira Super Nanny turbinada, em questão de duas, três horas no máximo, o Juninho estava treinado, estava sentadinho no sofá assistindo TV, comendo um lanche sem derramar um farelo sequer, falava sem erros de português e havia feito toda a lição de casa sem reclamar.
A casa parecia um paraíso, um alívio para a mente estressada de Marcelo, que bateu o carro a caminho do aeroporto e acabou perdendo o vôo e voltando frustrado para casa.
Marcelo desabafou para a velha senhora que era uma ótima ouvinte, procurou acalmá-lo e confortá-lo, e conseguiu. Marcelo nunca havia antes sentido mãos tão fortes e suaves ao mesmo tempo em seus ombros, ele ficou com o corpo todo praticamente dormente de tão relaxado.
Marcelo estava completamente satisfeito com os serviços da velha senhora, ela não precisava passar por nenhuma experiência, era a melhor profissional da área. Mais surpreso ainda ficou Marcelo quando foi tratar valores do salário, a velha senhora não queria pagamento, ofereceu seus serviços em período integral e de graça.
A velha senhora transformou rapidamente uma casa bagunçada em lar, uma vida desorganizada e sem tempo em “vida”, Marcelo não poderia estar mais feliz, se soubesse que seria assim tão maravilhoso, teria contratado a velha senhora muito antes.
Existiu mesmo essa velha senhora? Sim. Existiu com certeza!
Não. O nome dela não era Mary Poppins!
O nome dela era Maria de Lourdes, mas conhecida como Dona Maria, a mãe de Marcelo.





Gill Nascimento






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Um comentário:

  1. Que texto maravilhoso, realmente mães são tudo na nossa vida, elas possuem esse poder de transformar qualquer vida ❤

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