Só na manha!

Só na manha!


Uma hora eu chego lá, mas vai indo na frente que eu não estou com pressa, e quem chegar primeiro, se chegar, por favor, que acenda a tal da luz no fim do túnel, porque acho que só eu aqui tomei consciência de que essa tão falada luz está apagada.
Nem to ligando se vai demorar, se vou conseguir chegar antes de estar usando bengala e Viagra, pouco me importa se está todo mundo me ultrapassando, chegar é o que importa, e já que é pra seguir esse tal caminho desconhecido, que eu me deixe surpreender não é mesmo?
Me importo é em aproveitar a diversão que eu encontrar durante o trajeto, pouco me importa a quantidade de paradas.
Penso da seguinte maneira: se um caminho precisa ser percorrido, para que um objetivo seja alcançado, e no fim desse caminho grandes são as chances de você se tornar uma pessoa melhor, então tenho que aproveitar durante o trajeto pra cometer alguns pecados, porque assim é a vida, infelizmente o que é proibido é que dá tesão de verdade!
Vou ficar muito feliz se, quando eu estiver me aproximando do tal fim do túnel, a luz que vier a surgir seja vermelha e piscante, se estiver dentro de um Globo de luz será ainda melhor, ficarei feliz se tiver um pouco de putaria depois de andar tanto, porque se for passar a vida seguindo um caminho que te levará ao tédio, sou mais ficar deitado no sofá assistindo regravações do Programa do Faustão, só em ter paciência pra tal feito, e capacidade de suportar tamanha chatice, já me auto qualificaria um santo, e qualquer céu teria vaga pra alguém assim!
Pressa para quê? Em todas as histórias, as pessoas pacientes e mais calmas sempre se dão bem, são as pessoas que curtem a vida, ao invés de à ver passar pela janela de algum expresso, sem aproveitar porcaria nenhuma.
Correria já basta a de todos os dias rotineiros, quem trabalha pra pagar suas contas sabe do que estou falando, falta tempo hoje em dia para nossas responsabilidades, e falta mais tempo ainda para a nossa diversão, e quando enfim sobra um tempinho pra se divertir, a família tem que estar junto, e a diversão nunca pode ser do jeito que a gente quer.
Tipo assim:
Diversão ideal na cabeça de um homem que trabalha demais, seria encher a cara de cerveja, jogado no sofá, assistindo o futebol e coçando o saco, depois esticar as pernas indo ao bar do “Zé”, tomar mais algumas cervejas, jogar uma sinuca com os amigos e enfim soltar o ar que passa o dia todo segurando, para que a barriga pareça ser menor do que realmente é. Mas aí surge a família, se o dia for de sol você tem que enfrentar um trânsito infernal pra descer pra praia, ou então ter que passar o dia todo de olho pra pivetada não se perder no meio da multidão do SESC, se o dia não estiver tão quente, a mulher fará questão de inventar algo razoavelmente trabalhoso para fazer, como ir ao shopping, ao cinema, visitar a mãe dela (que seria o cúmulo da maldade), fazendo você refletir sobre o porquê de ter trocado a tranquilidade de um dia de trabalho pelo tormento de um trabalhoso dia de folga.
É analisando a vida por essas singularidades que, percebo o quão desnecessário é se preocupar com o tempo gasto pra chegar nessa tal luz no fim do túnel, porque veja bem, se esse fim de jornada cumprir todas as expectativas, a o restante da vida, após alcançá-lo, será de eternas idas à praia com a família, eternas idas ao SESC, eternas idas ao shopping, eternas idas ao cinema, eternas idas à casa da sogra, será uma tormenta daquelas ter tanto tempo livre!
A diversão se encontra no agora, naqueles momentos livres que surgem quando você sai mais cedo do trabalho e liga dizendo que vai ter que ficar até mais tarde, a diversão está naquelas fugidas para o campo de várzea aos domingos antes de todo mundo acordar, a diversão está na hora que você joga um dinheiro na mão da patroa pra ter aval e sossego pra assistir o futebol largado no sofá num dia de domingo, a diversão está nas happy hours que duram quase a noite toda, fazendo você dormir no sofá quando chega em casa, a diversão está em inventar que tem que trabalhar, no dia que a mulher resolve vestir as crianças com aquelas roupas novas e ir visitar a mãe dela… Aí se encontra diversão!
Nem precisa procurar muito!
Por isso que não tenho pressa, vai indo na frente que eu não me importo, pode até dizer que estou comendo poeira, quando eu chegar no final do caminho quero ouvir as suas histórias que ocorreram enquanto corria, e depois te conto as minhas, que ocorreram enquanto eu caminhava…






Gill Nascimento








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